segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Cireno, adeus

Cireno, ainda nos tempos de jogador: quinto
maior artilheiro da história do CAP

São Pedro está bem guarnecido lá no céu. Tem agora um baita zagueiro e um tremendo atacante para escolher no seu time.
Depois de Nillo, mais um ícone do Furacão de 49 se foi. Desta vez, quem nos deixou foi Cireno Brandalize - que junto com Jackson formou uma das principais duplas de ataques da história do Atlético. Cireno, aliás, é o quinto maior artilheiro da história do Furacão, com 114 gols marcados, atrás apenas de Sicupa, do próprio Jackson, de Kléber e de Marreco.
Contam que Cireno, além de grande jogador, também era conhecido por ser mas muito espirituoso.
Vamos deixar aqui o que ele relatou no Círculo de História Atleticana sobre o segundo Atletiba da final do Campeonato de 1945:

Nas palavras de Cireno:

“Mas aí, eu pensei: ‘Que adianta, já já o Neno vai lá e faz um gol de novo.’ O Neno era fogo.”

Nesta hora o prof. Heriberto comenta:

“Mas ainda bem que acabou logo a partida e ficou 5×4 pra nós.”

E Cireno retruca:

“Mas peraí, a história agora é que vai ficar bonita! Eu ganhei bastante jogo, não foi só um que eu ganhei. Eu ganhei bastante, mas tem muitos que ninguém sabe da metade da missa, e eu nunca conto. Vou contar por quê? Vão dizer que eu sou mascarado, um boçal, um palhaço, estou contando porque estou aqui numa reunião… sei lá, estou ficando velho, daqui uns dia eu vou embora mesmo. E conto o que eu bem entender.”

Cireno conta como tirou Neno do Coritiba do jogo:

“Eu pensei: ‘Se eu tirar o Neno, eu ganho o jogo.’ E o juiz estava na entrada da área e o Neno ali do meu lado. E eu fui lá e disse pra ele: ‘AÊ BOI!’

(Chamar o Neno de Boi era mesma coisa que tirar o gorro do Belo.)

E o Neno me agrediu. E eu disse: ‘Aê Boi, não adianta você fazer gol lá porque eu faço lá, você sabe que eu faço mesmo, estou fazendo, fiz agora, está 5×4 e não tem mais quem ganhe o jogo.’ Ele veio e me deu um soco, eu saí fora. Ele me chutou, eu saí fora. E eu: ‘ÊEE BOI’.

O juiz chegou apitando: ‘Neno está expulso!’ Aí o juiz me diz: ‘E o sr. Cireno, também pode ir.’ E eu disse: ‘Mas seu juiz, o cabra quase me mata, me deu um soco se me acerta a cabeça, onde estava minha cabeça essa hora? E o chute? Quase me quebra as duas pernas. O juiz disse: ‘É! Mas você veio aqui provocar, você não tinha nada que vir aqui provocar ele. Está expulso, pode ir embora e não tem conversa.’”

A discussão do Capitão Manoel Aranha com Cireno

“E eu fui (pro vestiário). Naquele tempo, o refrigerante no jogo de futebol, era laranja descascada, com aquela parte branca por fora e tirava uma tampinha e chupava. Quando eu passei na frente (da torcida), vejam o que eu fiz (pra ganhar o jogo), vocês não estão que nem idiota? Porque torcedor de futebol lá dentro do campo quando o troço está pegando fogo é tudo idiota! Ficam não sei o que… Qualquer coisa que entra na cabeça do cabra. Será o que eu fiz? Fiz! A arquibancada inteira me alvejou com aquelas bolinhas.

‘SEU VAGABUNDO, FILHA DA MÃE, FILHO DO PAI... NÃO SEI O QUÊ… SEU SEM VERGONHA É PRA ISSO QUE O CLUBE TE PAGA?’

E eu saí, de cabeça baixa. Quando cheguei no portãozinho, o presidente do Clube, Capitão Aranha, um baita de um homem, me diz: ‘É pra isso que o clube te paga, seu vagabundo?’

Aquilo me deu uma dor, uma dor que vocês não imaginam. Faltava 6/7 minutos pra acabar o jogo. Fui lá, tomei banho e tomando banho, pensava, será que vou pro Corinthians ou vou pro Vasco? Porque eu tenho duas chances pra ir. (Eu tinha estado no Corinthians, fiquei um mês treinando no Corinthians, quando cheguei aqui. E tinha estado no Vasco com os escoteiros lá em 39, o Vasco também quis ficar comigo me dava tudo que eu quisesse, eu é que não quis sair de casa, da casa dos pais. Estava no 3º ou 4º ano do Ginásio.”

O pedido de desculpas do Capitão Aranha a Cireno

“E eu estava lá me enxugando, quando eu escutei um baita de um barulho. Pensei, será que acabou ou alguém fez gol? Já tombaram na porta, o segundo a entrar foi o Capitão Aranha, já me abraçou, me abraçou, chorou, pediu desculpas, e disse: ‘Eu vou parar com futebol porque eu não posso perder a linha como eu perdi hoje com você. Um homem em sã consciência não diz o que eu disse pra você. Você ganha o jogo e eu ainda te esculhambo, te chamo de vagabundo, vou parar!’ E parou.”

“Ganhamos de 5×4, depois fomos jogar a última lá em cima.”

Ouça também a história na voz do próprio cireno, em áudio gravado pelo Círculo de História:


7 comentários:

Milene Szaikowski disse...

E ninguém sabia dessa história até o dia do Círculo.

Anônimo disse...

Lindo este resgate da história que vocês fazem, parabéns.
E parabéns aos nossos heróis também.
Titio Enéas

Anônimo disse...

Ué, cadê a homenagem no site oficial !? QUE VACILADA !!!!

Milene Szaikowski disse...

Aqui:

http://www.atleticoparanaense.com/noticias/oficiais/25882,Nota_de_falecimento_Cireno_Brandalise.html

E aqui:

http://www.atleticoparanaense.com/noticias/oficiais/25883,A_historia_de_Cireno_Brandalise.html

Saiu ontem mesmo, logo que se soube do falecimento dele.

Anônimo disse...

OK, é que hoje não há mais nada, mas OK, OK, vacilo nosso !!!

Anônimo disse...

Nem se informa e já vem falando, ô torcidinha geração Arena mesmo... dá uma espiada no vídeo do jogo contra a Ponte aí em cima e aprende o que realmente é ser Furacão.

Henrique disse...

Emocionante. Isso é o Atlético!!!