sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Nowak, olhai por nós!

Preste atenção na imagem de Paulo Baier preparando-se para mandar o caroço na forquilha do marrento goleiro do Ceará, no último domingo. O amigo rubro-negro -- que não é nenhum ingênuo -- deve ter percebido, como eu notei, a manifestação do sobrenatural.

Naquele quente aperto da tarde. Intermediária ofensiva. Na diabólica "Baixada do Água Verde". Dos olhos do velho maestro... vazava luz! Assim como, em certas horas do dia, a luz escorre pelos olhos dos santos dos vitrais de igreja. E, no exato segundo em que a bola triscou a trave para repousar no barbante, um calafriou percorreu-me a espinha: "Eu já vi isso".

Aconteceu em 1996, o ano da redenção, os 365 dias em que o atleticanismo foi professado como jamais havia sido e como nunca será outra vez. Uma quarta-feira à noite, dia 3 de outubro, no Joaquim Américo de José Carlos Farinhaque.

Eu vi, foi na mesma meta, a da Rua Buenos Aires, 1.260, naquela região onde Ziquita bailou ao som de "Simpathy for the Devil" em 1978.

O nosso escrete era lindo. Pra começar, Evaristo de Macedo, aquele adorado por madridistas e barcelonistas, entregava os coletes. Só isso. O atleticano Ricardo Pinto era o camisa 1 -- mais tarde, ele ficaria conhecido por "crânio de aço". Reginaldo Big Dog. Alex "The Mullet Warrior" Lopes. Alberto GPS. Luis Carlos, o melhor jogador coadjuvante da temporada. Oséas da Bahia e Paulo Rink, a dupla mais pop depois de O Gordo e o Magro. E dois rapazes vindos da Polônia, que serão citados oportunamente.

Exceto por Rink, todos os mencionados estavam em campo, ante o Botafogo, pelo certame nacional. O Alvinegro carioca detinha o título máximo do futebol canarinho e contava com o goleador e comediante Túlio. Era a época dos playoffs, e uma vitória valeria um ingresso entre os oito classificados.

No entanto, 30 minutos da etapa derradeira e estava tudo por fazer...

Até que, decorridos 34, Piekarski, o polaco de alma brasileira, recebe charge de Wilson Gotardo e deita. Trilado o apito, falta nossa, entrada da área, região central. Próximo do ponto onde o interminável Baier guardou no domingo passado. Naquele time, cascudez e bola cobrança de fouls eram responsa de Jorge Luiz, último de uma linhagem de quartos-zagueiros de bigode que tivemos.

Luiz Augusto Xavier percebeu a série de eventos do além que se desenrolou e escreveu, para a Tribuna e O Estado do Paraná, uma coluna da qual reproduzo o trecho abaixo:

A partir desta intervenção, Nowak entregou-se à vocação de santo. No ano seguinte, o branquelo agiu novamente com as forças ocultas, desta feita no Pinheirão. Foi fundamental na saga dos 5 a 2 de virada sobre os Coxas. Primeiro, serviu Jorginho Pé-Murcho no gol de empate. Depois, igualou o marcador com um tirambaço de cabeça que dormiu no ângulo.

O Polaco fã de Romário, do perfume Kenzo e que se não fosse jogador de futebol seria jogador de futebol nos deixou, mais tarde, para jogar na Alemanha, sem uma revés sequer em Atletiba.

E, já há tempos longe do Bosque do Papa, acabou acometido por uma doença gravíssima, que o levou aos 29 anos. Justamente no dia em que o Furacão suplantou o Cerro Porteño, nos pênaltis, no Paraguai -- passo inicial da caminhada épica na Libertadores 2005.


Hoje ele está lá, no céu, para onde vão os volantes de contenção...

E porque esta lembrança agora, quanto estamos quase sem munição, e todos atirando em nós?

Explico.

Sábado passado, eu, Peçanha e mais alguns celerados -- bebuns, heréticos e outros apaixonados pelo Trétis -- tivemos uma ideia, quase simultaneamente. Daquelas "estrambonáticas", como diria Nélson Sargento.

Fomos parar no Bar da Tia Lili, ali na Manoel Ribas, próximo do prédio da Telepar. E lá, num lance de grande beleza plástica, decidimos içar para o alto da parede principal uma camisa do Atlético. Está lá, por sobre os canecos de bailes do chope imemoriais.

Mas não qualquer uma. A camisa. A joia da coroa do inesgotável baú do Aderbal. Umbro, 1997. No branco do número 5, em polonês castiço, salta a dedicatória de Nowak.

Um legítimo MANTO SAGRADO.

De polaco para polaco. Notem que o bravo defensor eslavo terminou traído pela sonoridade tupi do nome do incrível Aderba. Algo que interessa menos para o momento. De alguma forma, todos os cavalheiros presentes concordaram que a veste abençoada dali não deveria sair. Seja lá o que rolar nos compromissos que nos restam, a começar pelo embate com o Peixe, amanhã.

E mais...

Sob a liderançe e influência da Dona Lili, nasceu o plano de que fizéssemos uma espécie de novena pagã -- bem diferente daquela que se faz no Alto da Glória. Distinta porque nós, atleticanos, forjados no Caldeirão, sabemos que o Capiroto apita, senão mais, tanto quanto Deus em nosso destino.

E ali, no domingo, no excelso do espaço da taberna, diante de todos aquelas pecadores, o manto já mostrou seu poder, despertando Nowak para beijar a cabeça calva do Maestro no encontro com o Ceará. E de seu olho vazava luz.

Só sei que de minha parte, na véspera de cada partida, daqui para sempre, levarei a minha fé de romeiro, fanático, para debaixo da armadura vermelha-e-preta na Tia Lili. Faça o mesmo. E que do céu, Krzysztof Nowak continue olhando por nós!

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O blog entra em ritmo de concentração. Um post por semana, horas após os jogos até o esperado dia do Eclipse. Rubro-Negro é quem tem raça e não teme a própria morte.

22 comentários:

Marcelo Ferreira disse...

O loco, que porfundo oO
Esse texto transbordou amor e sentimentalismo. Tava difícil achar alguma coisa tão boa e diferente do que vemos e temos agora. Parabéns pelo texto!

Alan Bike disse...

Grande Guerrilheiro!
Nesta "luz" que transcende a nossa compreensão, com certeza, encontra-se a energia dos seres viventes como nós. Quiçá os poderes do Além, Unam todos os Atleticanos de Boa Vontade, em busca da saída deste fosso, ops, poço em que nós nos encontramos!

Victor disse...

Guerrilha: F-0-D-A!!!

Tudo que envolve o ano de 1996 é sempre especial para os atleticanos. E quando traduzidos tão autenticamente num texto, emocionam a todo rubro-negro que se preze.

Show de bola!

J. Senko disse...

Poxa vida...

De olhos marejados e arrepiado com o texto.

Nowak foi quem me puxou para o Trétis, quando tinha então meus 10 anos.

Isso porque, Senko que sou, parente dos Novak tupiniquins, via isso como um sinal...

Nunca foi fácil no noroeste, ainda mais sem também nunca ter vivido (até então) na capital. Os canais não ajudavam; não tinha jogo pela internet.

E foi justamente com a 5 que pisei, quando juvenil, no gramado do Joaquim, num amistoso contra meu querido rubro-negro.

Veja o que proporcionou-me teu texto!

RUBRO-NEGRO É QUEM TEM RAÇA
E NÃO TEME A PRÓPRIA MORTE!

SRN!

Rubro-negro Bocaiuva disse...

Peita de NOVAK, só Cocito honrou e Deivid está honrando esse nº5 do nosso manto.

Porra Guerrilha, que texto "du-karaleo" parabéns

Rubro-negro Bocaiuva disse...

NOWAK, perdão por "aportuguesar" HEHEHE...

Rogerio Otto disse...

Big Post cara !

CAVEIRAHHH DE TOLEDO-PR disse...

Texto de arrepiar até o pelo do ..

Se sou da diretoria ou comissão dou um testo deste a cada jogador antes do jogo de sábado.

Talvez possam sentir um pouco o que o Atlético representa para os Atleticanos.

Milene Szaikowski disse...

Minha irmãzinha que hoje também está no céu. Entrou com o Nowak no gramado do Pinheirão naquele 5x2. E falou pra ele que ele ia fazer o gol. Hoje ambos estão fazendo o céu mais rubro-negro.

beijos Guerrilha

Andre disse...

Aqui o link no youtube sobre o jogo do 5x2 http://www.youtube.com/watch?v=aCUL1EQvHFo

Vinicius disse...

genial o texto. simplesmente genial.

Andre disse...

Que São Nowak nos acompanhe até o fim do campeonato.
Nunca esqueceremos 1996. NUNCA.

acesso103 disse...

De arrepiar!!! Valei Guerrilheiro!!!

NÃO VAMOS CAIR, AGORA TENHO CERTEZA!!!

Mauricio S. Martins disse...

Eu estava nesse jogo no épico ano de 96, vi o gol do Jorge Luís de perto, ali atrás no tobogã. Se não me engano o técnico botafoguense era o Jair Pereira que de clarou nunca ter visto na vida uma torcida tão vibrante como a nossa naquela noite. Também lembro de um helicóptero pousando no gramado da baixada para levar os polacos ao aeroporto para servirem à seleção, só não tenho certeza se foi após esse jogo.
Bons tempos e ótimas lembranças.
SDS RN´s

Fran disse...

Que as forças do Céu e da Terra nos ajudem hoje. Nowak, obrigada pelas alegrias que você nos deu. E nos ajude aí do Céu a sobreviver. Ano de 1996 venha influenciar nosso time a ser vencedor, vencedor e vencedor.
Parabéns Guerrilha, lindas lembranças e mensagens para sempre podermos acreditar. Beijos

Henrique disse...

Só quem esteve lá save o que foi aquela época. Do jogo dos guarda chuvas, contra o Vasco, do jogo do golaço de falta no Botafogo até a primeira vitória, contra o Grêmio, onda a partir dela o time deslanchou. Ah, como é bom ser atleticano.

Prof@no disse...

O amigo demonstra apresentar certos dotes literários um tanto quanto consideráveis e, porque não, refinados.

SRN.

MIke disse...

Além do time ser fraco, os árbitros estão sempre roubando do Atlético. As cartas já estão marcadas, e a CBF quer descer o CAP para a segundona. Enquanto este ladrão, mafioso, corrupto, louco não levar um balaço na testa de algum cidadão honesto, não vai haver credibilidade no futebol.
Até quando este corrupto FDP vai colocar um nariz de palhaço na cara de todo o cidadão brasileiro?

MIke disse...

Obviamente estou falando do maldito Ricardo Teixeira, que merece morrer não é de hoje.

MIke disse...

A HUMILHAÇÃO que o time sofreu hoje destruiu qualquer chance do time (se é que tinha) de brigar para ficar na primeira divisão. Graças ao desgraçado do Marcos Malluceli, vamos passar ainda a humilhação de jogar um atletiba, na arena, rebaixado.
Além de torrar a grana do clube em um cheirador de cocaína do Uruguai, tirar o estádio da Copa das Confederações, quase nos tirar da Copa e fazer com que apenas 4 jogos aconteça aqui, destruir a formação de jogadores, colocar um time ridículo para jogar o campeonato mais difícil do mundo, este cara fica impassível, incólume, como se não fosse com ele.

Bruno disse...

É...hoje o Nowak deve ter se retorcido no tumulo vendo nosso escrete em campo.

Cléber Santana, vá embora, hoje, agora, seu juvenil.

Nieto, vc me dá pena...

Marcinho...ah, Marcinho...quem te viu, quem te vê.

Renan Rocha, vc não é goleiro nem do meu time de pelada. Não saiu na foto nos 2 penais e no quarto gol do Neymar a bola foi chutada em cima dele...sem contar a "segurança" com que ele sai nos cruzamentos na área.

O jogo hj foi à feição para o Neymar brilhar, só o David marcando, o resto é mais devagar que tchau de Papa...imagina se o Santos tivesse em campo com Ganso e Borges.

Próxima pedreira, Atletico-Go em casa, sem o Véio Baier. Vamo que vamo, no grito, na raça, pq se é pra cair, que seja DE PÉ!!

Junão Miranda disse...

Nowak, olhai por nós...!!! #VamoQueVamoFuracão