sábado, 13 de fevereiro de 2010

É tudo vermelho e preto

Como explicar o fascínio pela combinação do vermelho e preto? Não se assuste, passa longe de mim a idéia de trazer alguns dos incontáveis significados e usos das duas cores, mesmo porque são também incontáveis as linhas/orientações que pretendem interpretá-las. Mas vou arriscar uma incursão pela mitologia grega, plena de sugestões de interpretação do nosso imaginário. Orfeu canta a noite, "mãe dos deuses e dos homens, origem de todas as coisas criadas", e esse preto da noite "reveste o ventre do mundo, onde, na grande escuridão geradora, opera o vermelho do fogo e do sangue, símbolo da força vital". Resultado: uma operação/combinação que envolve as entranhas...
Tal é o caso de Dona Gessy, há mais de cinqüenta anos magnetizada pelas cores rubro-negras. Ela nasceu em Guarapuava e quando casou veio morar em Curitiba - sorte das sortes, bem pertinho da Baixada. "Por influência de tudo, acho que nasci atleticana: lá no interior meu pai já era atleticano, eu adoro o vermelho e o preto e morei 32 anos perto da Baixada. Tinha um barranco, era só terra ali, mas era nossa arquibancada. A gente levava banquinho, pipoca, água e bandeira. Não perdíamos um jogo, meu marido, eu e meus três filhos, domingo era sagrado para nós".

Dona Gessy tem sete filhos, 10 netos, 10 bisnetos e, com o orgulho de uma matriarca do futebol, contabiliza: "entre 27 pessoas na família, apenas quatro coxas e um paranista". Ambas comemoramos essa "goleada" e ela continuou: "Eu tenho muiita saudade daquela Baixada. Inclusive, eu tenho as pedrinhas da Velha Baixada, guardo ali na pratileirinha do meu quarto os pedacinhos, a lembrança. Uma saudade mesmo porque ali era o amor pelo time, os jogadores jogavam por amor, pela camisa do Atlético. Hoje são poucos os que jogam assim. Mas eu continuo apaixonada pelo futebol, pelo Atlético, uma coisa que não sei explicar. Você viu, né? Meu quarto, meu banheiro, é tudo vermelho e preto".

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Trecho do livro Dez atleticanas e uma fanática, de Antonia Schwinden, que vamos sortear depois do Carnaval, via twitter, para comemorar um milhão de acessos no blog.

4 comentários:

Anônimo disse...

Lindo, simplesmente sem explicação.
Por oturo lado o CAP4Nothing tá de brincadeira, não? Nada lá agrega ao clube.
Titio Enéas

esou disse...

Mais uma flechada de Guerrilheiro Wood.
Uma reminiscência para ser lembrada eternamente; uma saudade saudável que a gente de "pouca idade" só conseguem imaginar.
Os antigos de casa infelizmente não eram muito de futebol, assim mesmo contam que a história e a trajetória Atleticana são ímpares em todo o Brasil.

"...e esse preto da noite "reveste o ventre do mundo, onde, na grande escuridão geradora, opera o vermelho do fogo e do sangue, símbolo da força vital".

Há descrição mais bela que isto?

Anônimo disse...

Olha aí que belo exemplo da dona Gessy. Isso sim é que é gostar do Atlético.

Bem ao contrários de uma nova geração de 'consumidores' que toda hora reclama de tudo e só sabe falar da 'diretoria'.

Quanto ao tal do site 4, tenho orgulho de dizer que nunca acessei e a ele não acessarei (a exemplo do que faço com o da tal da tribuna).

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Profano. Pelo atlético, tudo.

JMK disse...

Dizem que o Atlético era imitação do Flamengo... O CAP, CAF e CFC eram os testas de ferro e vinham Agua Verde e Primavera em seguida. Não havia a rivalidade "mórbida" que existe hoje entre a torcida.
Pessoalmente acho que a beleza do futebol está ligada diretamente aos sentimentos da torcida. E a senhora Antônia Schwinden representa o sentimento de uma verdadeira torcida.
É o lado belo de torcer o de romantismo que perdura ainda nos dias de hoje, felizmente.
Li esta página extasiado e divaguei pelo sonho que nunca consegui viver.