sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A culpa é do pão com bife

Em tempos de vereadores se metendo a burocratizar o futebol, usando a violência num jogo dos coxas como pretexto para aparecer na mídia, vale à pena repetir este texto publicado aqui no blog em março:
Por Juliano Ribas, da Furacao.com:
Adoro pão com bife. Lembro de bons pão com bife que já mandei ficha. Um deles encontro sempre no Restaurante Girassol, em Palmeira. Sempre que ia a jogos do Furacão em Ponta Grossa ou em Iraty, ou em viagens pela região, dava uma colada lá e mandava um, com ovo estalado acompanhando. Nas inúmeras viagens que faço entre São Paulo e Curitiba, encontro a iguaria bem feitinha no restaurante do posto Petropen ou no do Buenos Aires. Nesses lugares, chamam-na de “churrasco”. Sei lá porque chamam assim um sanduba de carne feita na chapa.

Não quero com este texto transformar esse amigo dos esfomeados em vilão. Não mesmo.

É que o pão com bife é um símbolo dos tempos em que os atleticanos assistiam futebol sem conforto. Quando se digladiavam para matar a fome no estádio com um pão chocho, recheado com um bifaço sola de sapato com uma bela guarnição de sebo, preparado num cercadinho de tijolos identificado com a singela placa “Bar”. Lá também encontrava-se a cerveja e o refri, dentro de latas de lixo de ferro, escondidos debaixo de grossas traves de gelo. É daquele pão com bife, que já me custou obturações no esforço em rasgá-lo e triturá-lo, que estou falando. Ele é a cara do futebol que ainda se faz no Brasil, esse país que daqui a cinco anos quer sediar uma Copa do Mundo. Um pão com bife seboso e feio.

Dentro desse cenário que ainda persiste na grande maioria dos estádios brasileiros, o governo teve a brilhante idéia de criar um cadastro de torcedores com o mimoso nome de “Torcida Legal”, que será obrigatório a partir do ano que vem, com o intuito de reduzir a selvageria que reina nos estádios e fora deles no país. É uma ideia inviável, para não dizer idiota, e que pune o bom torcedor. Mais um paliativo inócuo.

A violência no futebol não é privilégio do Brasil. Já foi um câncer na Inglaterra, o país com o futebol mais desenvolvido do mundo. Mas lá, ela foi resolvida com um plano de ações bastante eficaz, que tinha o nome pomposo de “Relatório Taylor”.

Pomposo no nome, afinal, é inglês. Mas bastante simples na formulação, afinal, é inglês.

A idéia básica partia da premissa de que é impossível se exigir um comportamento adequado em condições inadequadas. É muito mais complicado você exigir ordem social em uma favela onde faltam condições básicas de sobrevivência, por exemplo. Por isso favelas são considerados territórios hostis, não são as pessoas que lá estão que são más, mas é o ambiente que se torna propício à vilania.

A linha mestra do Relatório Taylor era: humanizar o ambiente hostil do futebol. Coisa que se faz no Atlético Paranaense desde a inauguração da Arena. Nós fizemos isso antes de todos aqui, trouxemos as famílias de volta ao campo e tratamos todos bem quando isso parecia heresia no Brasil.

Mas antes desse relatório, houve outra tentativa mal-sucedida do governo inglês
. Após uma tragédia em que torcedores do Liverpool provocaram a morte de 39 torcedores da Juventus no estádio Haysel, em Bruxelas, pela Copa dos Campeões, os clubes ingleses foram banidos por cinco anos de todas as competições européias. O Liverpool, por dez. Os ingleses, preocupados com os rumos de seu futebol, buscaram resolver o problema. E foi escrito o Relatório Popplewell. Que depois se mostrou ineficaz.

E qual foi uma das medidas desse relatório Popplewell? O cadastramento dos torcedores.

E qual foi a outra medida “inteligente” adotada nesse relatório que deu com burros n’água? Uma cerveja gelada pra quem adivinhar. A proibição do consumo de álcool nos estádios! Genial!

Esse relatório era carregado de um empedernido preconceito contra os torcedores, estereotipava o fã de futebol como rude, bêbado e mal-educado.
Os estádios passaram a ter tantas câmeras de segurança quanto o mais seguro presídio inglês. Mas ao mesmo tempo, continuavam a ser verdadeiras pocilgas.

O relatório Popplewell foi substituído. O escrito pelo Lord Peter Taylor foi adotado a partir de 1989, e o cadastro de torcedores, o “Torcida Legal” inglês, foi abandonado devido a ineficácia. Decidiram então combater as causas não os efeitos.

Foi o fim de estádios sem estrutura, com arquibancadas de madeira ou sem assentos numerados, com banheiros imundos, cozinhas podres servindo gororobas horrendas; com acessos estreitos, sujos e mal conservados e iluminados, sem distinção clara das entradas do time da casa e do visitante. A cerveja voltou a ser parte do espetáculo e fonte de renda. Quem vai ao estádio passou a se comportar como gente, pois começou a receber tratamento de gente. Foi o fim do pão-com-bife-e-sebo inglês.

Não se encontram mais hooligans na vida dos clubes. Exercitam sua selvageria apenas no submundo e de vez em quando de lá eles emergem e aparecem em jogos da seleção inglesa pela Europa. Mas o problema entre os clubes foi praticamente extinto.

Aqui, vinte anos depois do cadastro de torcedores ter sido um fracasso na Inglaterra, resolve-se adotá-lo. A cerveja, que faz parte da diversão de muitos homens de família, está proibida.
E o único clube que trata seus torcedores com respeito, ainda é, apenas e tão somente, o Atlético Paranaense.

No Atlético Paranaense a torcida já aprendeu a sentar nos lugares marcados. Já aprendeu que deve cuidar do que é seu. O ambiente é civilizado e seguro e chama as famílias aos espetáculos. Existe limpeza e conservação e a maioria da torcida zela por isso. E todo mundo sabe que não vai passar fome no estádio por nojo da comida. Ainda podemos melhorar e muito, mas dentro do mar de sebo que é o futebol brasileiro, com seus Maracanãs, Pacaembus, Coutos Pereiras, Morumbis, Fontes Novas, Beiras Rios, o Atlético Paranaense é a solidificação de um Relatório Taylor à brasileira.

Ainda bem que as ideias de Mário Celso Petraglia, o nosso Lord Taylor, foram adotadas aqui, bem no Atlético, não em outro clube. Nenhum atleticano consegue mais se imaginar em uma Baixada sem o conforto que tem hoje. Todo atleticano quando sai de casa e vai a outros estádios, sente saudades da nossa moderna Arena. Quem ainda vai à palhoça verde em Atletibas sabe do que estou falando: goteiras, sujeira, perigo de acidentes, desconforto e cheiro de urina por toda a parte. E assim é em todos os outros estádios do Brasil.

Se há violência, muito é pela forma como se trata os torcedores e os cidadãos no Brasil. E não é os fichando como bandidos ou proibindo seus justos prazeres, é que se vai melhorar o futebol brasileiro.

É preciso cortar o sebo dos nossos pão com bife.


* Nota do blog: À época, o projeto de cadastramento de torcedores proposto pelo governo federal foi tão criticada pela imprensa que levou o Ministério do Esporte a desistir da estapafúrdia ideia. Aqui, talvez pela comoção causada pela "Batalha das Coxinhas", (quase) ninguém questionou essa lei municipal horrorosa aprovada pelos vereadores a toque de caixa, como se estivessem aprovando um nome de rua, e que vai agora à sanção do prefeito Beto Richa. Que, espero, tenha bom senso para vetá-la total ou parcialmente.

17 comentários:

Julio disse...

Ah Guerrilha, pelo amor de Deus. Publicar texto deste xarope é demais. Vi o nome do cara e corri o olho bem rápido pelo texto para encontrar o nome do Coronel. E tchanan, é claro que existe um parágrafo inteiro voltado a bajulação. Todos sabem que ele, o tal do Soltondoumbarronovo, o Rafael Lemos e o desqualificado de um tal de Elias são pagos pelo Coronel para ficarem o bajulando. Eles já nem estão mais no site Furacão.com por isso mesmo. Eles tem espaço no tal coroneltomeforever. Quem quiser bajulação, puxa saquismo tem seu espaço lá. O teu blog é bem bacana, não estrague!

GUERRILHEIRO DA BAIXADA disse...

Esquece o parágrafo do Petraglia e centre no assunto principal do texto, meu chapa. Relax.

Anônimo disse...

Assim é o Brasil.
Um político como o Aciolli, que está respondendo a um processo por homicídio (e tem o direito de ser considerado inocente até o julgamento), cria um projeto em que exige atestado de antecedentes para se associar a uma torcida.
Mas para ser vereador, Deputado ou Senador, eles não aceitam a aprovação da LEI DOS FICHAS SUJAS, QUE EXIGIRIA ESTE ATESTADO P/ QUEM SE PROPUSESSE A DISPUTAR ELEIÇÕES.
Resumo da ópera, se uma pessoas estiver respondendo a um processo talvez em virtude de um acidente de trânsito, não poderá se associar a uma torcida, enquanto outro que responda por exemplo a homicídio, estupro, sequestro e formação de quadrilha, poderá disputar a eleição a deputado ou senador e alcançar a tão desejada imunidade parlamentar que suspenderá o(S) processo(S).
É muito cinismo!

Anônimo disse...

Esse Aciolli é o mesmo que criou um projeto que obriga as casa noturnas a "escanearem" a identidade de seus frequentadores. Isso mesmo, não se trata de apenas fotografar e anotar os dados, os documentos deverão ser copiados.
Quem vai responder qdo falsários se apossarem de computadores com esses dados?

Julio disse...

Desculpe Guerrilha mas não leio este cara.

JMK disse...

Na Inglaterra, os torcedores flagrados e condenados por atos ilegais, nos dias de jogo têm que comparecer na delegacia e ficar confinados numa sala onde só tem livros de boa conduta, uma hora antes, durante e uma depois do jogo...

Anônimo disse...

Sim, e é assim mesmo que tem que ser. Pode esperar, já para o ano que vem, que os maus elementos das torcidas organizadas comparecerão livre e espontaneamente à delegacia nos dias de jogo. Detalhe: sem invadir estação tudo, claro. Pagarão a passagem como cidadãos normais.

Anônimo disse...

Fala sério Júlio, o texto do cara é bom pra caraio, mas que tem o parágrafo do coroné, isso tem ...

Anônimo disse...

O texto é muito bom para refletirmos a situação do nosso futebol.
Se o cara é um puxa-saco, azar dele.
Mas temos que admitir que se não fosse o "Coronél", estaríamos na velha baixada (talvez somente um pouco maquiada como os demais estádios brasileiros).
Na verdade, precisamos fazer uma estátua em homenagem ao "Coronél".
Quanto aos políticos... o que esperar deles???
Alemão

Juliano Ribas disse...

Ao Sr. Julio,

Prove que alguém recebe do MCP para "bajulá-lo", ou senão, se continuar a escrever isso publicamente, será processado judicialmente.

Molecagem tem limites e, se você não está acostumado a ler gente com opiniões diferentes das suas, faça como você diz "não leia este cara".

Mas evite ficar vomitando injúrias, porque por trás de um teclado fica muito fácil. Na frente do injuriado, tenho certeza que a voz afina.

Tome cuidado com o que diz publicamente, não seria nenhum sacrifício para mim levá-lo à justiça para que afirme com todas as letras cheias de coragem que você parece ter, que eu ou qualquer outra pessoa recebe para dizer aquilo que realmente pensa, meu caro infante inberbe.

att
Juliano Ribas

Anônimo disse...

A ARENA DA BAIXADA é o único estádio do Brasil com toda infraestrutura necessária e só existe baderna na ARENA quando vão lá os malditos dos ervilhas.

Anônimo disse...

Foda-se o Coronel ou quem for que seja. Verdade seja dita: não dá para esperar que o ser humano aja como tal se não for tratado como ser humano. E entre nós Atleticanos... a nossa Querida Baixada é um Deslumbre! Chumpem todos os demais torcedores do país neste quesito! No caso dos coxas, tinha bandidagem lá no meio deles mesmo. Todavia, o problema é deles! Fizeram m... agora aguentem as consequências... falando em consequências estou quase virando fã do presidente das ervilhas, ahahah! O cara vai se reeleger! Querem notícia melhor do que esta?!? ahahah! Eles só voltam para a Séria A lá por 2014 ahahah!!!
Voltando ao assunto dos estádios o nosso é o melhor e fim de papo. Cerveja? O cara que baixou esta lei deve ser baitola, pois porra... uma cervejinha na hora do jogo é espetacular... dá até para gritar mais alto! A-TLÉ-TICÔÔÔÔ! A-TLÉ-TICÔÔÔÔ! A-TLÉ-TICÔÔÔÔ!

SRN

Everton

Rafael Lemos disse...

http://www.cap4ever.com.br/conto-de-natal/

Eu acabei de escrever esta coluninha - de graça, como tenho feito desde 2004 por onde tenho passado.

É uma pena que existam pessoas que acusem gente honesta só porque o cara escreve neste ou naquele site.

Não gostar do que a gente escreve é um direito, mas ofender a nossa honra é atitude subalterna.

É uma pena que o Júlio tenha dito isso aí... se ele me conhecesse e visse que sou um assalariado que vive com a corda no pescoço ia se sentir ridículo de afirmar um negócio desses(ando de ônibus, não tenho celular, casa própria financiada em 20 anos...).

No mais, parabéns ao Blog que é feito com muita qualidade pelo Guerrilha!

Abraços

Rafael Lemos

Luiz Andrade disse...

O Blog está tendo sua importância reconhecida. Foi citado em uma matéria da Gazeta do Povo: "STJD faz vistas grossas sobre invasão de torcedores do Flu no Couto Pereira" no último parágrafo "O Blog da Baixada, do rival Coxa Atlético Paranaense (sic) , divulgou um dos vídeos que circulam pela internet e que mostram a invasão dos torcedores do Fluminense. Provas não faltam.

esou disse...

A pior "guerra" é a interna que enfraquece o "Estado". Não podemos nos dar ao luxo de ficarmos se dividindo; precisamos crescer! Devemos ser "monoteísta" o Atlético é único e eterno não importam os Papas que são passageiros!

Invés de crítica maldosa e insultos vamos "sugerir" soluções aos dirigente atuais. As imposições, geralmente destroem; imaginem se alguém consegue realizar um bom trabalho com uma arma apontada na sua nuca; olhem o exemplo que o coxa nos deu!

Aqui a cerveja, o bife no pão, churrasquinho até revistinha UH Caldeirão são os culpados da baderna dentro e fora do campo.

Anônimo disse...

O nosso presidente está postando anuncio nas páginas de empregos da gazeta do povo, "PRECISA-SE DE JOGADORES MEIA BOCA BOM E BARATO"
enviar curriculo pro nosso diretor de futebol meia boca ocimar bolicenho!!!

Rafael disse...

Juliano Ribas nao da nao.