quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O sorriso sátiro de Dirceu

Por Sandro Moser:
A minha geração alcançou ainda os bons tempos do Atletiba. Nos verdadeiros clássicos, a torcida do Atlético ficava na curva da Igreja:
– El, el, el... segura o papel... e quando o Rubro-Negro entrava era aquele verdadeiro Niágara de papel branco e pó vermelho; e a velha faixa desbotada e alguém dentro do campo detonando os fogos fátuos.
Os últimos grandes jogos desta época foram as finais de 1990. É importante que se faça, rapidamente, uma pequena contextualização histórica. Era o tempo das camisas de algodão, tempo de Lombardi Jr, dos estaduais semestrais e suas fórmulas mirabolantes. Juan Figger estava começando a botar as manguinhas de fora, bem como o recém-eleito presidente da CBF Ricardo Teixeira.
Ainda não tinha se dado a ascensão do Bragantino, das camisas de tecido sintético espalhafatoso, Vanderlei Luxemburgo e outras imposturas. Não havia produtos importados e quando os garotos precisam repor uma bola furada nas peladas de rua iam até a Fedatto e compravam um capotão n° 5. Só os muito playboys tinham acesso às bolas oficiais das Copas.
Alguns contemporâneos de Pelé ainda jogavam por ali e acolá e o Atlético era presidido por José Carlos Farinhaque. Para os jovens que não o conheceram ele era o anti-Mario Celso Petraglia. Era antes de tudo um torcedor (antes que as hienas se arremessem - ele foi também um empresário de jogadores e teria sido o inaugurador do balcão de negócios na rua Buenos Aires). Pode ser, ocorre que a motivação era conjuntural. Era o que se podia fazer e não de política estrutural (sacaram ???). O Polaco assumiu o Atlético numa época difícil, quando todos os quadros se afastaram. Seu compromisso era com a torcida. Se hoje os torcedores são impedidos de entrar no Clube (escrevi este texto antes da trégua do inverno de 2007), naquela época éramos convidados para churrascos, bois no rolete.
Se hoje ninguém sabe quem é contratado e dispensado, naquela época éramos anualmente convidados a comparecer no Afonso Pena, receber alguma “cobra”. Éder, Kita, Vivinho e Eder Lopes. Estive em todas essas. E as especulações inverossímeis? E o caminhão de jogadores que chegavam e saíam diariamente? Mario Henrique e Wilson Maciel nos abasteciam com nomes e mais nomes quase que todos os dias. Nos jogos mais calmos, Farinhaque levava seu pai – um senhor polonês que parecia ter mais de noventa anos e usava suspensório e galocha – para ver o Atlético. Como era bonito tudo aquilo.
Eram tempos românticos, meio prosaicos – tempos honestos, mais claros. Tempos que foram engolidos pela paranóia da “mudernidade”, do mundo corporativo, clube-empresa, milhões de dólares e todos os palavrões do futebol atual. Há quem diga, hoje em dia, defendendo os novos tempos:
– Você queria voltar praquela época?
Nostálgico incorrigível que sou, não digo nada. No máximo, dou um suspiro e peço outra.

ELETRÔNICA MODELO - Em agosto de 1990 eu tinha 12 anos e o Atlético era a coisa mais importante da minha vida. O Brasil, com sua democracia ainda virgem, fervia no caldo das eleições gerais. Assisti a todos os jogos daquele campeonato de três turnos e um hexagonal e o Atlético montou uns cinco times naquele ano. Peguem a lista de jogadores utilizados. Vai de Assis a Paulo Rink. Vitórias sofridas em jogos noturnos no Couto Pereira (os banheiros eram lavados de creolina para nos sacanear) naquele inverno frio e um empate em 2X2 , com dois de Dirceu, nos deram a vantagem de dois resultados iguais nas decisões. É bom lembrar que no ultimo jogo do ultimo turno havíamos enfrentado pela primeira vez o recém-nascido Paraná. O gol da vitória também foi de Dirceu.
O primeiro jogo da decisão é o meu Atletiba inesquecível.
Recordo-me que os ingressos foram majorados em trocentos por cento e custariam o equivalente a 15 dólares. O Globo Esporte estadual, surpreendentemente, fez uma matéria lindíssima e inesquecível com um samba que não sai da minha cabeça, mas que eu nunca mais ouvi (“O jogo é hoje, vai sair o grande campeão...”).
Lembro de ter ido comprar meu ingresso à tarde, nas bilheterias da Rua Mauá. Numa trêmula excitação, passei o resto do dia tirando e retirando aquele ingresso do bolso, olhando-o como se fosse a verdadeira rosebud, a coisa mais valiosa do Mundo. Não consegui comer nada. Eu ouvi todos os programas esportivos possíveis.
Meu pai viajava muito na época. Não estava na cidade. Mas seus amigos e colegas de antigas diretorias do Atlético usavam nossa casa no Alto da Glória, na quadra do campo, como posto avançado Rubro-Negro. Aquele dia foi igual. O próprio Farinhaque deixou o carro lá em casa, junto com o grande Airton Gallina. Lembro que neste dia, o querido tio Galina me falou que o Atlético tava de olho num centroavante de 17 anos, de Brasília, que ele chamou de “Renaldo sem i”.
Eles foram antes, eu fui com meu irmão e minha doce irmã Tatiana (que assistiu todos os jogos do hexagonal decisivo).
Noite fria de neblina densa. O plano Collor e o aumento absurdo do preço, além certeza de um outro jogo domingo levaram menos de 20 mil pessoas ao antigo estádio do Coxa. Algum gênio da raça havia inventado uma versão de Another brick in the wall, usando os versos de uma paródia que uma rádio já fazia e a notória indecisão sexual dos coxas, a origem obscura de suas famílias e tudo o mais. A propagação boca-a-boca deste hino e o verdadeiro delírio pornográfico que ele causava no refrão retumbante foi o fenômeno popular mais impressionante que eu já vi em toda a minha vida.
Do alto destes quase vinte anos fica a certeza de que sem a composição deste clássico das arquibancadas (hoje desvirtuado e até profanado pelos estádios do Brasil) não teríamos vencido o campeonato.
Os coxas tinham um time muito bom, que nos vencera facilmente no ano anterior e no primeiro turno (no lendário jogo do porco do Julião). Tinha Tostão, Serginho e o jovem Pachequinho que sempre jogavam bem o Atletiba. Por mais que pareça irreal atualmente, aquele tempo era difícil ganhar deles. Eles geralmente venciam, mas com esta ressalva fatal: não as decisões.
Era o que nos consolava e elevava, pois o nosso time - que a história se encarregou mais tarde de consagrar - nos era simpático, mas um pouco desconhecido. Havia sido montado havia apenas algumas semanas. Vieram só para as finais Fonseca, Leonardo, Gilberto Costa , André e Rizza. Juntando-se ao grande Marolla, meu ídolo Odemilson, Carlinhos Sabiá, Kita, Cacau, Heraldo e Valdir. Além do Serginho "Mico", nunca lembrado, todavia o artilheiro daquele time e havia outros. Sobretudo, o sobrenatural Dirceu. Jogo nervoso demais, eles sempre pressionando.
Lembro perfeitamente do verdadeiro suplício que foi o primeiro tempo. O Atlético quase não atacou e cortou um doze para não levar gols. Eu, garoto, no fosso ali da entrada da Mauá, sentia o estômago e o coração saindo pela boca. Os amigos do meu pai, para meu espanto, pareciam reservadamente otimistas e confiantes. Não conseguia entender como. E só fui conseguir muito tempo depois – quando eu também comecei a tomar cerveja nos estádios.
Eles estavam com aquelas camisas listradas na vertical, que os meus vizinhos coxas chamava de a “ganhadeira”. Nós, elegantíssimos, de mangas longas rubro-negras e calção branco. O segundo tempo foi mais equilibrado e mais tenso e com mais neblina. Na metade do período aconteceu o pior. Ocorriam num outro nível as provocações naquela época, as torcidas ficavam mais próximas. Garrafas de meia cerveja voavam sobre o cordão de isolamento. Como eles fizeram barulho. E como a nossa torcida sempre cresce nessas horas. Do gol deles, que deve ter sido pelos 25 min, até o fim, Os Fanáticos não pararam de berrar, entraram numa espécie de um transe, todos loucos de algum chá de cipó da amazônia peruana. Uma coisa que não se vê mais. O negro Dirceu foi chamado por Zé Duarte (técnico boa praça e sósia do Chacrinha).
“A Eletrônica Modelo informa, substituição no Atlético...” Nos minutos finais pressionamos como nunca. E então Deus resolveu começar o primeiro ato da sua intervenção. Alguns amigos vão dizer que Deus apita pouco na Baixada do Água Verde. Quem manda lá é o “Outro” e tal. Cruz credo, vade retro, mas enfim... Uma bola quebrada no meio campo tinha o endereço da linha de fundo. Eu tinha a impressão de que seria tiro de meta pra eles. O Goleiro deles achou que não. Com Dirceu a acossá-lo e resolveu sair da área para evitar o escanteio. Criou no último minuto o que os antigos chamavam de “córner de mangas curtas”.
A oportunidade que precisávamos. A impressão era de que todos os jogadores foram pra dentro da área, com a maioria dentro da pequena área. A neblina (já era quase meia noite), era compacta, maciça. O Couto tinha uma rede azul e a jogada era do outro lado. Eu, com meus enlouquecidos 12 anos, via tudo atentamente, mas por outro lado não via nada do que realmente estava se passando. Gilberto Costa levantou na primeira trave. Todos na bola. Durante um segundo eterno, eu fiquei sem saber o que aconteceu. Tinha a impressão, mas não a certeza.
De repente naquela escuridão medonha surge o sorriso branco de Dirceu. A saúde dentária do nosso herói era a confirmação. Aconteceu. Os bêbados da curva do Corneta pareciam “já saber”. Os “anticristos” da caveira – que em todos os casos naquela hora pediram a benção do papa - explodiram. Dirceu atravessou o campo, eu delirava, “só para me garantir que tinha feito o gol pra mim”.
Fica tranqüilo garoto, a pequena criança já está dormindo
, ele me dizia.
Aquele era nosso. Não teve mais jogo. A bateria começou o "tum / tum-tum": “Atirei o pau nos coxas...”.
Dias depois, existiu ainda o segundo jogo, não menos espetacular e não menos sobrenatural. O segundo ato da intervenção divina. Espero que um confrade mais inspirado saiba contar esta história.
Este primeiro jogo foi mais do que um simples jogo. Foi um divisor de águas na vida do Atlético, uma espécie de “morte do passado”.
O sorriso sátiro de Dirceu de Mattos atravessando o Alto da Glória foi o meu grande momento na história do Atletiba.


26 comentários:

Anônimo disse...

Que riqueza de detalhes Moser!! Lindo texto, me fez voltar no tempo.
Também estava lá e o Dirceu virou mito, lembro que trabalhar no dia seguinte foi coisa difícil, só o jogo voltava à mente...
Enéas

Ciro disse...

Nunca leio textos grandes em blogs, mas esse me prendeu, era como eu estivesse lá. Eu fui no último jogo (do gol do Berg) e tinha a mesma idade, 12 anos.
Por um instante, senti o cheiro do estádio dquela época, o clima, o frio do concreto, e os bons tempos que não voltam mais.
Um abraço e obrigado.

EMILIO disse...

Genial.

Também estive lá, com meus 13 anos!

Mas lembre que foi 2001 que realmente nos consagrou.

Mesmo vencendo 90, inventando Pink Floyd e tal, só com a conquista do Brasileirão 2001 a escravatura atleticana foi abolida.

Os coxas arianos foram mandados pra Nuremberg, pagar por todos os seus horrendos crimes e até hoje nos olham de baixo pra cima.

Valeu Dirceu,
Valeu Alex Mineiro!!!!

Julio disse...

Eu tenho lembrança de alguns Atletibas decisivos, mas não com esta riqueza de detalhes. Parabéns por guardar em sua memória uma riqueza de detalhes tão grande. Parece esquisito, mas o único jogo das antigas que tenho lembrança marcante é o Atlético 2x0 no Flamengo em 83. Foi a primeira vez que fui a um jogo de casa cheia. Tinha apenas 7 anos e fiquei espremido no colo do meu pai e do meu tio Rubens que era coxa. É recordar bons momentos.

Anônimo disse...

Já falei pro desgraçado do Moser que esse texto é absolutamente MÍTICO. Fica o registro aqui.

Rafael Lemos disse...

Texto de arrepiar. Revivi a história...parabéns, guri!

Abraços

Rafael

Anônimo disse...

Texto maravilhoso.
Noite inesquecivel. Ate hoje tenho a assintura do Dirceu no meu bone da sorte.
Parabens pela brilhante narrativa.
Charlie

Anônimo disse...

puta que pariu Polaco, porque voce não escreve mais assim ???

Christiano Ferreira disse...

Simplesmente LINDO!

Anônimo disse...

Eu até abri uma cerveja para terminar de ler. Semana de Atletiba a gente fica emocionado...

Anônimo disse...

Bom dia!
Texto massa! Essa foi de arrepiar!
No segundo jogo depois do título, fomos para baixada tomar chopp. Era o maior empurra para tomar um copo.Mas tudo era alegria. Acredito que foi uma das ultimas vezes que saímos da baixada de onibus.
São momentos únicos.
Valeu!
Um Ultra abraço!
Gabriel Barbosa.
Diretor geral.

Anônimo disse...

KA-RA-LEO me senti no estadio lendo este texto, coisa linda.

Canga Rubro-Negra disse...

Os ATLETI -bas dos anos 90 eram fantásticos. A festa das torcidas eram infinitamente mais bonita do que hoje. Estádios sempre lotados e o número de brigas era bem menor. Saudades.

Anônimo disse...

Não era "A eletrônica Modelo informa:".
Era "A eletrônica Modelo, um modelo de eletrônica, informa:"
--
E pensar que hoje os caras exigem cadeiras reservadas e seus nomes gravados nelas! E só sabem reclamar.
--
parabéns ao autor do texto.

________
profano

Anônimo disse...

não meu caro profano
era assim mesmo:

"A eletronica Modelo informa: substituição ppa.......
..............,informou eletronica modelo" e então vinha o slogan:

"Eletrônica Modelo, um modelo de eletrônica."

sagrado

Anônimo disse...

rapaziada, que momento espetacular, fiz parte desta festa tb, e digo mais, é incrivel o que aconteceu naquela noite, pois pode parecer mentira, mas eu e alguns amigos resolvemos puxar o grito de Dirceeu no meio da fanaticos, nao imaginavamos que na sequencia estaria toda a massa rubro-negra chamando nosso idolo da final de 90, e em seguida Ze Duarte o colocaria em campo pra que fizesse mudar a historia da final, e o resto todos vcs lembram bem... grande abraço
johnny

Anônimo disse...

Tá certo. No final o cara falava: "informou eletrônica modelo, um modelo de eletrônica".
Boa memória.

____
profano - táva lá

Flávio Jacobsen disse...

Ê, Polaco! Depois me digam se meu brother aí não é o melhor cronista atleticano?!!! Rá!

poru disse...

PqP Polaco.
De gala.
Fuerte Abrazo

Franco

Bruno disse...

Em 1990 eu tinha 6 anos, não sabia ainda o que era futebol, mas pode ter certeza que lendo esse texto eu me senti lá tb!!A 1 vez q fui num atletiba foi no esgotão, em 1996, tinha exatos 12 anos e me lembro bem dos varios rolos de papel higienico que meu irmão e eu lançamos no gramado, como era de praxe na época!
Recordar é viver, excelente texto!

Anônimo disse...

Tenho 27 anos, faço 28 em novembro, e tb peguei alguns desses atletibas mágicos dos anos 90, quando nossa torcida ainda ocupava todos os três anéis da entrada da Igreja. Realmente a atmosfera era outra, as festas muito mais coloridas, bonitas e emocionantes, as torcidas eram separadas por uma simples corda pocicionada no início da reta, com meia dúzia de policiais, as vezes nem isso, a império ocupava a reta e passavam o jogo inteiro olhando pra Fanáticos, admirando e invejando a nossa festa, nem assistiam a partida direito, deviam se perguntar como aquela torcida que na grande maioria das vezes saía do clássico derrotada poderia ser tão mais apaixonada e fazer uma festa tão superior a eles próprios, podíamos perder dentro de campo, mas nas arquibancadas era sempre de goleada, e eu aho que a torcida atleticana, (especial a TOF das antigas), foi a responsável por manter nossa torcida grande e fiel durante todos aqueles anos de vacas magras, tínhamos uma coisa que eles não tinham e hoje apenas pensam ter, coração. Os tempos mudaram, nossa torcida ainda é a melhor, mas não é mais a mesma, os tempos mudam, tudo muda, e quando nos damos conta estamos com aquele mesmo papo "de velho" que não suportávamos ouvir quando éramos mais jovens e a vida parecia muito mais simples e feliz: No meu tempo ...
Obs 1: seu blog é fantástico, parabéns pelo grande trabalho que vc desenvolve aqui, por apresentar a nova geração a essência da nossa torcida
Obs 2: não entendi se esse texto é seu ou não.
Um abraço a todos os atleticanos e atleticanas.

Diogo.

GUERRILHEIRO DA BAIXADA disse...

Valeu Diogo.

Este texto é do Sandro Moser, que vez em quando nos envia uma colaboração. Um guerrilheiro esporádico, como tantos outros anônimos.

Abs

Guerrilha

Anônimo disse...

Porra tem que mandar este para o Dirceu ler

Anônimo disse...

Ao meu irmão Sandro Moser, muito obrigado. Fantástico e emocionante, este texto me fez reviver momentos que pareciam perdidos. Há muito tempo eu não tenho lembranças tão boas.
Obrigado
Luciano

Henrique Guerra disse...

Isso é o Atlético. Não essa playboyzada xarope da GV Inferior!!

Zé Luiz Sykacz disse...

De arrepiar. Fantástico relato. Mesmo não tendo idade pra viver em plenitude aqueles tempos, pude me sentir por alguns minutos no meio da massa atleticana e, pasmem, sentir saudade de algo que eu sequer vivi. Só um texto com tamanho nível de paixão é capaz de conseguir isso. Meus sinceros parabéns.