quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

As cores e as dores de um homem

Rafael Lemos, da Furacao.com:
Esta Furacao.com noticia que “Uma cena lamentável manchou o brilho da festa das torcidas no clássico Atletiba do último domingo, no Estádio Couto Pereira. Pouco antes do fim do primeiro tempo, a provocação típica de torcedores rivais nas arquibancadas foi substituída por um episódio criminoso e que deve ser repudiado por toda a sociedade. Ao invés de músicas e cantos comuns das torcidas de futebol para provocar os adversários, alguns torcedores do Coritiba xingaram e fizeram gestos racistas contra os atleticanos, numa clara demonstração de segregação racial”.

À notícia, acrescento: Ao invés de músicas e cantos comuns das torcidas de futebol para provocar os adversários, alguns torcedores do Coritiba xingaram e fizeram gestos racistas contra os atleticanos, numa clara demonstração de segregação racial, DE COVARDIA, DE BAIXEZA, DE FALTA DE CARÁTER E DE BURRICE.

Estou indignado, é verdade, mas não pensem que vou escrever inspirado por esses idiotas e em “homenagem” a eles. Tampouco darei a eles alguma lição de moral, pois moral é coisa que eles não têm e nunca terão. Imbecis são dignos das colunas policiais e indignos de ganharem espaços numa coluna ligada ao futebol. Vou escrever, sim, sobre as diferentes cores dos homens, sobre as diferentes dores dos homens, vou escrever sobre a vida.

O ano de 2003 foi difícil para mim. Entre fevereiro e novembro, fiquei desempregado. Em agosto, consegui trabalho voluntário num dos hospitais de Curitiba. Duas horas por semana, sempre nas terças-feiras. Nunca havia sido voluntário até aquele agosto e, de cara, fui escalado para ler histórias e supervisionar o desenho das crianças internadas, mas que já estavam liberadas para as atividades de lazer/terapia.

Tímido, pensei que ia ser muito complicado me soltar com as crianças e quebrar o gelo. Entrando na sala das leituras e dos desenhos, apresentei-me – num improviso – “Eu sou o Rafael, tenho 28 anos e torço pelo Atlético Paranaense!” e depois pedi que a gurizada fizesse o mesmo. Diante dos meus olhos, crianças, visivelmente abatidas, ganharam forças e foram se apresentando.

- Meu nome é Marcelo, tenho 8 anos e torço pelo Atlético!

- Muito prazer, seu Marcelo. Daqui pra frente você vai ser o Marcelinho!
A gurizada explodiu:

- Marcelinho! Marcelinho! Marcelinho!

- Eu sou o Renan, torço pelo Atlético e tenho 5 anos!
- Muito prazer, Dr. Renan!
E a gurizada, rindo, arriscou uma quase-musiquinha: Dr. Renan! Dr. Renan!

- Rebeca, 6 anos, e não gosto de futebol!

- Dona Rebeca, se você não gosta de futebol, gosta de peteca? – provoquei, na forma de quase-poesia, e veio mais um coro da gurizada:
- Rebeca peteca! Rebeca peteca!
Mais duas apresentações e chegou a vez de uma menininha negra, cabecinha raspada por conta da quimioterapia, magrinha, enormes olhos pretos, olhos curiosos.

- E você, menininha, não vai me dizer o seu nome?

- Não!
- Nem a sua idade?
- Também não!
- E o time?
- Menos ainda!
Todas as negativas dela tinham um arzinho de deboche. Ela estava louca pra responder a todas as perguntas, mas estava fazendo charme, eu percebia isso e dava corda só pra ver aonde ela ia chegar.

- Ah, conta pro tio qual é o seu nome?

- Não! – e ela disse esse "não" segurando o riso!
Como o diálogo não progredia, a turminha entregou:

- Ela é a Letícia, tem 9 anos e torce pro Coxa!

Fingindo decepção, ataquei:

- Dona Letícia, você é uma menina tão linda, e torce pelo Coxa? Ah, isso não se faz com o Tio Rafa! Logo pro Coxa! Pro Coxa... – e ela, diante do meu fingido horror, abriu-se num sorriso que iluminou seu rosto abatido e que iluminou a sala inteira.

Ao final das apresentações, houve amor à primeira vista, de parte a parte. Este pobre Rafael virou Rafa, pra criançada do Hospital; e cada criança acabou rebatizada com os apelidos carinhosos de “Marcelinho, Rebeca Peteca, Dr. Renan e Letícia Coxa-Branca” – coisa de amigo pra amigo.

O ano de 2003 foi difícil para o Atlético e risonho para o Coritiba. Toda terça-feira eu ia visitar os meus amiguinhos no Hospital para a “Leitura das Histórias e Supervisão dos Desenhos”. Nas atividades, entre uma história e outra, entre um rabisco e outro, Marcelinho, Dr. Renan e eu falávamos sobre o Atlético – meio que disfarçadamente, pra Letícia Coxa-Branca não nos ouvir.

- Rafa, o Atlético está ruim!

- Está feia a coisa, Marcelinho!
- Tem hospital pra time de futebol, Rafa?
- Tem nada, Dr. Renan!
- Xi, olha a Letícia Coxa-Branca!!! Ela está vindo. Vai tirar sarro de nós! Disfarça!
E não dava outra! A Letícia Coxa-Branca - menininha negra, cabecinha raspada por conta da quimioterapia, magrinha, enormes olhos pretos, olhos curiosos – chegava perto de nós, com ares de riso, e perguntava:

- E o Atlético, Rafa? Está ruim, né?

- Está, mas vai melhorar!
- É, mas o meu Coxa está muito melhor e vai jogar a Libertadores! Pode perguntar pro meu pai! Foi ele que me falou e ele entende tudo de Coxa!
No dia 07/10/2003, primeira terça-feira de outubro, fui ao Hospital para minhas atividades. A turminha reunida se ressentia da ausência da Letícia. Após as histórias e desenhos, procurei o Dr. Giorgio Baldanzi e ele me falou que a Letícia havia sofrido uma recidiva da anemia falciforme e que estava na UTI desde a noite de sábado, 04/10/2003. Era pouco provável que ela sobrevivesse.

No sábado, 11/10/2003, às 9 horas da manhã, recebi por telefone a notícia: a Letícia havia falecido, pouco antes das 4 horas da madrugada. Naquele sábado de outubro – dia de Atletiba, por sinal – fui ao velório da Letícia. Ao me despedir da pequenina amiga, vi o corpinho negro repousando no caixãozinho branco; vi o corpinho negro cercado por três bichinhos de pelúcia, multicoloridos; o corpinho negro coberto por flores brancas e ramos verdes, como se a natureza quisesse prestar sua homenagem à pequena Letícia Coxa-Branca.

Após o sepultamento, seu Paulo – pai da Letícia – aproximou-se de mim e me entregou uma folha cuidadosamente dobrada. Nela estavam desenhados: um homem de óculos - branquelo e gorducho - vestindo a camisa do Atlético e uma menininha negra vestindo a camisa do Coxa. Em volta dos desenhos, um monte de coraçõezinhos e no rodapé uma dedicatória, com letras trêmulas: "Pro meu amigo Rafa uma lembrança da Letícia Coxa-Branca". Lembrança de uma menina Negra, Linda e Coxa-Branca que eu nunca mais vou esquecer.

16 comentários:

João Pedro disse...

Sem bricadeira chorei lendo esse texto...

Anônimo disse...

Lindo texto... Fiquei pensando de como seria melhor a vida se cada um de nós deixasse transbordar, ao menos um pouco, a criança que habita em nossas almas. Bola p frente...sem racismo e preconceitos.

Aurélio disse...

Também chorei agora...

Fernanda disse...

Bem triste... De tudo o que li a respeito do assunto este texto é sem dúvida alguma o mais tocante, mas toca apenas aquele que é dotado de alguma moral.
O idiota que protagonizou este episodio lamentável de racismo no Atletiba, obrigando a quem estivesse presente assistir ao seu circo, não recebe este texto da maneira que recebemos, é um babaca amoral.

Anônimo disse...

Excelente.

Meu padrasto é atleticanoe meu tio é coxa. Os dois são inseparáveis. Sempre lamentamo rumo que o Atletiba tomou. Sempre dizem que quando eram jovens, não havia divisão de torcidas. Sai gol do Atlético, eram os rubro-negros zoando com os verdes ao lado, cabisbaixos. E vice-versa.

Às vezes acontecia algum entrevero
mas a turam do deixa-disso estava sempre presente e em maioria esmagadora.

Sempre dizem que a violência de hoje em dia é causada por que os organizadores tratam o público como gado, animal. E aí a torcida veste a carapuça e comporta-se como tal.

Eu discordo. Nunca vi um animal ser capaz de cometer ato tão covarde, baixo, mesquinho e chulo como esse.

Rico

Anônimo disse...

Tambem chorei honestamente, invoquei a criança dentro de mim

Anônimo disse...

Torcida é uma coisa muito dificil!

Tenho um primo coxa branca, quando eramos pequenos discutiamos muito, em 2003 e 2004 foram os momentos mais dificeis, ele me provacava pela classificação do coxa a libertadores e pela derrota do Campeonaato Brasileiro de 2004, aquele Natal de 2004 foi horrivel, chegeui a chorar, o rapaz ficava cantando o hino dos Santos, mas meu pai e tio sempre deram razao a ele.

Depois o coxa começou uma fase dificil, fomos campeoes paranaense de 2005 e o coxa caiu, a partir dai ele abandonou o futebol.

Apesar disso essa briga ficou marcada e hoje infelizmente apesar de adolescentes, nos nunca tivemos uma boa relação.

A ulima vez que ele vestiu a camisa do coxa foi no titulo do paranaense 2007.

Marcus Vinicius disse...

Lindo... Me segurei pra não chorar... parabéns ao autor.

Anônimo disse...

Me segurei pra não chorar... [2]

Anônimo disse...

Um idiota que escreve na tribuna do paraná chamado luiz claudio massa fica instigando o racismo e jagando a torcida contra adversarios, o cara não pensa o que escreve.

Roberto Takai disse...

Outra vez chorei lendo as cronicas do Rafael Lemos, a primeira vez foi " o menino das pipas", parabens Rafael, vc deve ter um coracao muito grande! Um coracao Atleticano!!! Que Deus te abencoe!

Anônimo disse...

Aos Amigos, por tanto carinho, muito obrigado!

Abração

Rafael Lemos

Anônimo disse...

Aos Amigos, por tanto carinho, muito obrigado!

Abração

Rafael Lemos

lhbleo disse...

O grande problema é que nem todo Coxa-Branca é como a Letícia, e nem todo Atleticano como o Rafa!

Se este espírito de amizade tocasse todos...

Andr3 disse...

O grande problema é que nem todo Coxa-Branca é como a Letícia, e nem todo Atleticano como o Rafa![2]

SAV!

Anônimo disse...

Amigos,

Uma vez mais, agradeço o carinho de suas palavras!

Abração

Rafael Lemos