terça-feira, 25 de novembro de 2008

Torcemos para sofrer, e sofremos mesmo

Crônica de Cristovão Tezza publicada hoje na Gazeta do Povo:

Um osso duro para receber homenagem. Um pouco por timidez e muito por autocrítica (a sensação de que quem me homenageia está de fato levando gato por lebre), acabo ficando quieto no meu canto. Bicho-grilo anos 70, não fui nem à minha própria formatura. Mas ser homenageado pelo Atlético Paranaense, meu time do coração, isso é irrecusável.
Na verdade, peguei carona na homenagem ao Felipe, meu fil
ho. Tudo bem – a malandragem quase inocente faz parte da cultura do futebol, o pai explorando o filho, de modo que lá fomos nós, no jogo crucial contra o Vitória, onde recebemos, num encontro de uma simpatia e de uma simplicidade maravilhosas do Departamento de Imprensa do clube, uma placa muito bonita, que já está em lugar de honra aqui em casa. E mais duas camisas personalizadas e autografadas, que, junto com a placa, têm sido objeto de veneração dos atleticanos amigos, veneração regada a cerveja e a gritos em cada lance emocionante, que têm sido em grande número – é verdade que em geral mais de susto que de alegria, mas vamos levando.
E que jogo contra o Vitória! Como se repetiria contra o Botafogo, tudo certo, o time jogando razoavelmente, exceto aquele chute final que põe a bola na rede, mas que para nós se recusa a entrar. Uma tortura chinesa. Antes de começar, perguntaram ao Felipe qual seu ídolo, e ele tascou imediatamente “Alan Bahia!” – justíssimo, afinal, porque foi o Alan Bahia que fez o gol da vitória e o milésimo gol atleticano nos brasileirões, além de nos salvar, com um golaço, de uma derrota contra o Botafogo.
Mas eu acho que o verdadeiro herói atleticano desse ano, dentro de campo, foi o Galatto
, que com a ponta dos dedos vem nos resgatando de um desastre muito maior; e, fora do campo, nosso São Geninho, esse técnico extraordinário cuja misteriosa alquimia com o rubro-negro em poucas semanas transformou uma nau de desesperados em alguma coisa sólida parecida com um time de futebol e até com momentos verdadeiramente bons. O homem certo, no lugar certo, na hora certa – poderia ter sido já lá naquela fatídica terceira rodada para nos poupar de um ano tão ruim, mas nesse caso o futebol teria lógica e perderia a graça.
Parece que alguma substância masoquista faz parte inseparável desse esporte. Torcemos para sofrer, e sofremos mesmo – não é brincadeira.
Mas sofreríamos muito mais, por 2009 inteiro, se não tivéssemos o Geninho para acertar o time. Pela primeira vez levar um gol já não é derrota certa; pela primeira vez, duas vitórias seguidas; pela primeira vez, uma boa seqüência sem perder.
Ainda estamos a perigo, mas não tenho nenhuma dúvida de que nos livramos da queda.

As razões técnicas ficam para os especialistas em futebol da Gazeta, dos quais sou leitor aprendiz e atento. Falo como torcedor mesmo, dos tribais, que tentam desviar a bola para a rede só com a força do pensamento.
Cristovão Tezza é escritor e atleticano fanático.

4 comentários:

Anônimo disse...

parabens pelo texto...
e com certeza todos nos rubro negros concordamos com os santos, galatto e geninho, queria que todos tivessem esse espirito e garra, nao precisa ser um kaka da vida pra jogar no cap, mas ja usando o exemplo do milan, e so olhar aquele gattuso, o cara e ruim com a bola no pe, mas tem uma raca, e um amor pela camisa que a anos o deixa sendo titular da equipe, precisamos de jogadores assim para 2010, assim como valencia, alan bahia, mesmo criticado sempre levou o cap na alma, e sempre batalhou em campo...

que 2010 seja de muito menos sofrimento, e um pouco mais de alegrias...

Nikolas P.

Anônimo disse...

Tezza, um atleticano ilustre e que colocou de forma própria o que muitos de nós atleticanos sentimos.
Parabéns.

Pedro Loyola

Anônimo disse...

2009... 2010 ainda tá longe hehhe

Nathanael Lessa disse...

Paulo Leminski, Dalton Trevisan, Cristóvão Tezza...os grandes cérebros da província são atleticanos...