terça-feira, 17 de junho de 2008

Na sessão de cinema

Texto do premiado escritor Cristovão Tezza publicado hoje na Gazeta do Povo:
Indiana Jones em Brasília

Cristovão Tezza

Quis o acaso que me encontrasse súbito sozinho em Brasília numa tarde de domingo, num hotel seco como o ar, à espera do dia seguinte – e pela janela via apenas um deserto de carros cortando o cerrado. Único plano, assistir o jogo do Atlético contra o Goiás pela televisão. Quem sabe transmitissem? Nada, a vida sem assunto, eu atrás de notícias. Pedi à família que me mandasse torpedos dos gols, e me aventurei ao léu. Como todos sabem, Brasília não tem esquina, mas desemboquei num daqueles caixotes horrendos cheios de lojas, que o povo ama e lota nos dias santos.

Entrei na caverna, indeciso entre um pedaço de pizza, um livro ou voltar ao hotel, olhando vitrines sem ver o que olhava, passeando de escada rolante, uma tarde arrastada e sem fim. Acabei num guichê de onde saí com um ingresso para o filme Indiana Jones, o que me deu um surto juvenil: escapar desse domingo abrindo uma porta do tempo, ocupar duas horas vazias, recheá-las de nada e sair dali mais feliz.

A utopia começou bem – mesmo com o barulho da comilança de pipoca, ouvi um torpedo e conferi no escuro: “Gol do Atlético”. Comecei a achar o Harrison Ford um grande herói. Duas fileiras atrás um sujeito animado cantava o filme para a namorada, explicando todos os detalhes assim que eles aconteciam: “É claro, dentro da geladeira o Indiana Jones não vai sentir os efeitos da radiação!” Mas não tive tempo de me irritar – conferi o celular, que apitou discreto: “Gol do Atlético”. Nada mal, dois a zero!

O locutor continuava: “Mas não é que esse gordo é da CIA?! Agora está explicado!” Continuei seguindo o circo de tolices cativantes rolando na tela, ainda que com a sensação de que esse último filme da série parecia mais um churrasco juntando o pessoal antigo para uma pelada de casados contra solteiros, todos usando as velhas fantasias só de farra, e o celular apitou de novo. Suei frio – deve ser deles. Não, era nosso: “Gol do Atlético”. Não consegui mais ver o filme direito, na dúvida: esse celular está com defeito, manda o mesmo gol várias vezes. Mais um pouco – aquela corrida maluca lá na tela (“Ah, agora eles vão cair na cachoeira”, anunciou o locutor, preocupado), e outra notícia que eu não sabia mais interpretar: “Gol do Atlético”. É isso que está acontecendo?!

O poder daquele crânio dolicocéfalo de cristal, igual à caveira gigante da Baixada, parecia surtir efeito lá da tela – me concentrei, olhei fixo para ele e outro torpedo apitou: “Gol do Atlético”. “Nem pense em pegar o chapéu do Indiana, cara!”, torceu o locutor, na cena final. Saí dali nervoso, enquanto subiam os créditos: cinco a zero mesmo?! Um entreouvido de torcedores confirmou a goleada. Foi um dos melhores filmes que já assisti na minha vida.

Já no último sábado, não fui ao cinema e perdemos da Portuguesa. Mas acho que não tem relação. Jogando como jogou, nem o Indiana Jones resolvia.

Um comentário:

Anônimo disse...

Mas o filme é bom ou não? O Atlético que jogou contra o Goiás foi maravilhoso...