terça-feira, 10 de junho de 2008

A Justiça e a cerveja

Tem dias em nossas vidas que preferimos esquecer.
Pra mim, hoje parece ter sido um desses.
Além dos problemas que se multiplicaram no serviço, uma topada resultou num galo na testa. Depois, o advogado me telefona para avisar que perdi uma causa. Uma derrota daquelas que te arrasa, por você saber que tem razão; te fere na alma por deixar bem claro que nem toda a rigidez do Direito e nem todo o aparato do Judiciário são capazes de fazer justiça em todos os casos. Ou seja, continuamos a ser vítimas impotentes de injustiças.
Logo após, ainda sob o impacto da infeliz notícia, ligo o rádio do carro e ouço uma entrevista com o excelentíssimo procurador-geral do STJD, senhor Paulo Schmitt. Indagado sobre o episódio do copo vazio arremessado no gramado da Baixada durante a partida contra o Goiás, ele explicou que o Atlético pode ser denunciado com base na súmula do árbitro, mas que os boletins de ocorrência sobre a prisão dos autores devem anular a denúncia automaticamente. Schmitt mostrou ainda certa inquietude com a reação da torcida, na visão dele demasiadamente exagerada, ao dar uns tapas e umas cusparadas no imbecil quer jogou o copo.
Até aí, tudo bem. Mas quando ele argumentou que esta reação pode até gerar, também, uma denúncia, encafifei. Cansei de ver nego se esmurrando nos estádios, brigas e confusões homéricas, sem que isso preocupasse os senhores procuradores - sem falar que o caboclo saiu escoltado pelos seguranças da Arena. Por outro lado, esquece-se o sr. procurador que essa reação dos torcedores é motivada justamente pela norma exageradamente rígida criada pela CBF e pela interpretação dada pela Justiça Desportiva de que uma balinha ou um copo plástico vazio representam uma ameaça à integridade dos atletas e pode resultar em perda de mando de jogo. Portanto, mais do que natural a reação da torcida ao ver um babaca jogar algo no gramado, mesmo sabendo do rigor dos órgãos competentes - principalmente (e estranhamente) quando se trata da Baixada.
Por fim, e para fechar o dia, Schmitt demonstrou extrema preocupação pelo fato do Atlético, a exemplo de alguns clubes, estar vendendo cerveja no estádio, mesmo estando os donos de bares amparados por decisões liminares para fazer valer contratos já assinados com o clube. Para o sr. procurador, a CBF e o Ministério Público não querem saber se há decisões judiciais ou não, e o não-cumprimento da proibição pode resultar numa punição no âmbito desportivo.
E mais: mr. Schmitt ainda relacionou o fato de o jaguara que jogou o copo ter levado umas bolachas com o consumo de bebida. Para ele, é tudo uma questão de lógica: o copo foi jogado porque a venda de cerveja continua permitida; os que se revoltaram e xingaram e cuspiram no cretino também só o fizeram por que estavam "com a cara cheia" de cerveja - ou seja, o estúpido só apanhou porque a venda de cerveja continua permitida. Essa lógica me pareceu mais uma piada de português, que em outra ocasião eu conto.
Lógico que a tal entrevista só me deixou ainda mais emburrado e indignado. Algumas perguntas me martelam a cabeça desde então:
1) Pode a CBF legislar e exigir que alguém NÃO CUMPRA uma decisão judicial?;
2) Se as leis vigentes no país garantem às instituições que vendam cerveja em suas propriedades, pode a CBF ou o STJD punir um clube por fazê-lo?;
3) Há uma determinação para que os clubes recorram somente à Justiça Desportiva quando o assunto for, evidentemente, desportivo (leia-se fórmulas de campeonatos, perda de pontos, acesso ou rebaixamento, tabela de competições, etc); agora quando o assunto extravasa a esfera desportiva pode a CBF meter o bedelho? Por exemplo, a questão de contratos com atletas, principalmente em casos de rescisões, há muito tempo passou a ser assunto da Justiça do Trabalho... No caso da venda de cerveja, não é óbvio que é um assunto de âmbito cível?
4) Onde estão nossos juristas? Não há como nós, cidadãos de bem, entrarmos com alguma medida judicial contra a CBF, independente de para qual time cada um torça?
Por último, deixo uma sugestão ao Atlético: pelo menos enquanto essa pendenga pela venda de cerveja não chegar ao fim e os bares da Baixada estiverem se apoiando numa decisão liminar, que se proíba a entrada de copos nas arquibancadas. O clube já tentou isso há alguns anos e a medida resultou numa péssima reação por parte da torcida (eu mesmo fui um dos que criticaram). Mas agora, enquanto vigora essa determinação dos sábios-supremos da CBF e enquanto ainda existirem imbecis que arremessem copos no gramado, me parece ser a melhor solução para o momento. Até porque, na Arena, quem quiser ir até a praça de alimentação para tomar uma gelada não perde um só lance do jogo - pode continuar a assistir a partida pelas câmeras do circuito interno de TV, espalhadas por todos os bares do estádio. Tenho certeza que os Sócios-Furacão iriam entender, e até apoiar.

PS: OK, nem todo o dia foi "un oignon q'on épluche en pleurant"*. A parte bacana foi a noite de autógrafos do livro Dez atleticanas e uma fanática, pela autora Antônia Schwinden, nas Livrarias Curitiba do Shopping Estação. O goleiro Vinícius e o meia Netinho estiveram presentes, e foram assediadíssimos pela molecada. Os meninos e meninas faziam fila para tirar uma foto com os ídolos e pegar um autógrafo. Bacana ver que a molecada atleticana se identifica tanto com os jovens valores do Furacão. Eventos como esse são importantes também para que os jogadores vejam o que eles significam pra esse povo e qual é o tamanho de sua responsabilidade ao vestir a camisa rubro-negra.
(*) "A vida é uma cebola que se descasca chorando" - Armand Masson

5 comentários:

Marcos A. Silvestri disse...

Boa noite Guerrilheiro,

Tenho ainda mais uma ingagaçao: A CBF nos priva de tomarmos a nossa cerveja durante os jogos, mas continua recebendo o patrocinio de uma companhia cervejeira como pode ser visto no ultimo jogo da seleçao.
Nao seria isto uma tremenda incoerencia? Ou seriam outros interesses que nao cabem a nos pobres mortais divagarmos.

Anônimo disse...

Concordo com o atleticano Marcos, quanto será que a CBF recebe de patrocinio da Skol na publicidade estática nos estádios ??? Faz propaganda mas proibe a venda ?? Por outro lado, tudo isso por causa de um idiota que jogou o copo na campo. este imbecil deveria ser proibido de entrar na arena do atletico.

Anônimo disse...

Que vexame. conforme eu já previa a "tv"furacao chupou imagens de outra tv. olhe como são as coisas. O CAP desce a lenha na sportv e chupou imagem deles. que vergonha.

Rafael disse...

SABE O QUE EH ENGRAÇADO DESTA HISTÓRIA TODA DE PROIBIÇÃO GUERRILHEIRO O PATROCINADOR DA SELEÇÃO A AMBEV.......TEM SUAS MAIORES VENDAS NÃO DO GUARANÁ E SIM DE SUAS CERVEJAS.....ANTARTICA....BRAMAH...
BOHEMIA....SKOL....ORIGINAL...STELLA ARTOIS...CARACU....POLAR(UMA DAS MELHORES QUE TOMEI)...SERRAMALTE....KRONENBIER...
ESSA EH A VERDADEIRA SELEÇÃO BRASILEIRA NÃO GUARANÁ....AGORA O BRASIL MUDOU CERTO DE PATROCÍNIO TOCA UM FODAC NOS SPAIPAS COCA COLAS...FLWWWWWWWW

Fernanda disse...

Realmente... é muita incoerência!
Têm coisas que é melhor nem acompanhar pq envenena a alma! Taí uma delas, quero só ver no que isso vai dar...