quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Justa homenagem

Em sua coluna de hoje na Tribuna, Augusto Mafuz homenageia um dos grandes torcedores atleticanos:
Zezão

Era um coitado o árbitro que, na Baixada, ousasse imaginar um erro contra o Atlético. E se o erro saísse da imaginação, era um pobre coitado. Zezão saía da barraca da Brahma, que ficava atrás do gol de fundos, lá na curva de onde se jogava laranja, perto do “pinheiro do Boluca”, e vinha. Vinha escada abaixo, e era tão fulminante, que parecia rolar.
Baixinho e gordinho, de bigode e sem cerimônias, transformava-se em um gigante: crescia tanto, que dobrava o seu metro e meio.
Ninguém era capaz de segurar Zezão. Nem a sua alma que se afogava em tanta bondade. Ela quase ficava no seco, porque a bondade de Zezão não era somente essa bondade que é distribuída por Deus. Era uma bondade divina, é verdade; mas, era uma bondade que só existia em razão de um ideal de sua vida: o Atlético.
E Zezão chorava pelo Atlético na derrota. E Zezão chorava pelo Atlético na vitória. Em Atletiba, ganhando ou perdendo, Deus do céu. Ninguém consolava Zezão. O tempo passou, mas ele não quis crescer. Tinha medo de perder a ilusão, aquele sentimento tão nobre de quem ama alguém ou alguma coisa.
E, de repente, Zezão viu tudo ir embora. A Baixada para ficar suntuosa, em forma de arena, teve que sacrificar aqueles que eram seus valores intocáveis: a barraca da Brahma, o “pinheiro do Boluca” e a curva da laranja. E Zezão chorava na Arena.
E chorava. Fosse Gabriel García Márquez diria que Zezão, pelo Atlético, “chorava à goela solta, como choram os árabes os seus mortos”.
Parecia com a alma esgotada de tanto sofrer e vibrar pelo Atlético. Eis quem surge para Zezão: Alex Mineiro e os seus gols antológicos naquelas tardes de domingo de 2001.
O tempo passou, mas Zezão continuou a chorar. Agora chorava de orgulho de ver tudo o que a sua paixão o impedia de sonhar; e chorava, como forma de agradecer a Deus de conservar o seu ideal de vida, eternizado por aqui: o Clube Atlético Paranaense.
Esclarecimentos

Zezão era José Américo Guimarães. Neto de Joaquim Américo, que dá o nome à Arena. Morreu no domingo.
Curva da laranja: nos fundos da Baixada. Passou a ser chamada assim, durante um jogo Atlético x Jandaia, em 1968, quando a torcida jogou laranja no árbitro.
Barraca da Brahma: era a barraca de venda de bebidas, mas tendo como referência a cerveja da época.
Pinheiro do Boluca: referência a Boleslau Slyviani, hoje mais tradicional jornalista esportivo do Paraná, da Tribuna do Paraná, a quem peço licença para citar. Contam os atleticanos da época, que Boluca fazia gols pelo Atlético, mas às vezes a bola de seus chutes subia demais, e batia no grande pinheiro dos fundos.

Nenhum comentário: