segunda-feira, 9 de julho de 2007

Ha 10 anos, futebol brasileiro presenciava a maior mobilização já feita por uma torcida

A publicação deste post está um pouco atrasada, sabemos disso, mas não poderíamos deixar de passar em branco a data. Há 10 anos, em junho de 1997, o futebol paranaense viveu a maior mobilização de sua história: a "cruzada" da torcida atleticana para reverter o afastamento do clube de suas atividades por 1 ano, punição injustamente aplicada pelo STJD, no que ficou conhecido como "Caso Ives Mendes".

Resumindo o caso, para quem não lembra: Mendes, na época presidente do Comitê de Arbitragem da CBF, queria ser candidato nas eleições de 1998 e começou pedir "colaborações financeiras" a dirigentes dos clubes de futebol. Uma conversa dele com o então presidente do Atlético Mário Celso Petraglia foi gravada e a gravação foi parar no Jornal Nacional. Nela, Mendes pressionava Petraglia e exigia dinheiro. A edição foi caprichada para tentar inverter a situação, colocando Petraglia como corruptor. O circo estava armado e formava-se o cenário ideal para Fluminense e Bahia, rebaixados no campeonato anterior, tentarem garantir sua manutenção na primeira divisão. Com o Atlético punido, ao menos uma vaga na elite seria aberta.

O STJD apressou-se em julgar o caso de decretou a eliminação de Petraglia do futebol e o afsatamento do Atlético, por um ano, de todas as atividades desportivas. Mal sabiam que estavam cutucando um leão com vara curta.

Detalhe interessante é que a reportagem do JN mostrou também uma conversa de Mendes com o então presidente do Corinthians, Alberto Dualib, também pedindo dinheiro, mas o clube paulista não sofreu qualquer punição.

União e revolta

A revolta rubro-negra foi um acontecimento jamais visto no futebol brasileiro. Envolveu do mais humilde torcedor a personalidades como senadores, governadores e ex-governadores, ministros, ex-ministros, políticos de toda a monta, enfim.

Na linha de frente, a massa atleticana. Os torcedores entupiram o fax da CFB (e-mail ainda era artigo de luxo na época) e congestionaram as linhas telefônicas da entidade com mensagens de repúdio. Cartas de repúdio eram enviadas aos montes também à Rede Globo e às redações dos principais jornais do país. Uma manifestação promovida pela torcida Os Fanáticos levou quase 10 mil pessoas à Praça Afonso Botelho - protesto que ganhou as telas das TVs e foi mostrada para todo o país por diversos telejornais.

Noutro front, uma articulação política como jamais houve no estado. O grande "maestro" desta orquestração foi o ex-governador e ex-ministro NeyBraga, já falecido. Ney conseguiu apoios importantes, como do então ministro da Justiça, Iris Rezende. Até o maior cacique político da época, o senador baiano Antônio Carlos Magalhães, indignado com a injustiça e convidado pelo senador Osmar Dias a participar do movimento, telefonou para o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Sessões da Assembléia Legislativa e da Câmara de Curitiba foram dedicadas ao assunto, repudiando a arbitrária decisão do STJD. Teixeira, aliás, viveu um período pra lá de turbulento. De um lado, sofria uma grande pressão dos cariocas para que o Fluminense tomasse o lugar do Atlético na primeira divisão. De outro, recebeu inúmeras manifestações de autoridades políticas e desportivas do Paraná, repudiando a punição ao clube e exigindo que o Atlético pudesse participar dos campeonatos normalmente.

Graças a essa mobilização, o destino do Atlético começou a ser mudado. Oficialmente, Teixeira não quis arcar com o ônus de tomar uma decisão e jogou novamente o caso para o STJD. Mas, nos bastidores, o presidente da CBF já tinha exigido que o tribunal resolvesse o problema criado. Em novo julgamento, os auditores decidem abrandar a punição ao clube, fazendo com que "apenas" perdesse o mando de campo no Brasileirão e que, ao final da competição, o Furacão tivesse descontado cinco pontos na tabela de classificação.

Embora a nova pena ainda continuasse injusta, o Atlético não estava mais proibido de participar de competições, graças à pressão da Nação Atleticana. A torcida voltou a invadir as ruas para comemorar a maior vitória política que um clube de futebol fora do eixo Rio-SP já conseguiu neste país.

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